Niko no Bunker

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Pelo nome, algo há que não está aqui. Pelo corpo, a presença se faz forte, um espaço em branco tão tomado de texto.  Pietro não sabe o que quer, Pietro só sabe o que não quer, Pietro pára, Pietro que vai voltar é só… Pietro não sabe o que quer, Pietro só sabe o que não quer. Voltar é só sinal do que não é mais. Pietro, Niko não pode voltar. Pietro, Niko não pode voltar.

I – Não há nada de novo no bunker

Todos saíram de suas casas a força, deixando pra trás as paredes sólidas que envolviam os laços mais sublimes de um homem; deixando pra trás o sorriso de Pedro, o vão entre as coxas de Olívia, a comida do dia, o sabor doce do cotidiano. Deixar pra trás a ilusão da rigidez. O som do choro engolido, o medo de abandonar a casa, refém do desconhecido, o medo de caminhar pra frente, numa fila indiana, rumo ao lugar que está, já disposto pela ordem. No meio do quintal; olha pra trás, vê no rosto da esposa o semblante do que é inexprimível. A noite agora seria mais fria, não mais encontraria o ardor de um abraço único, as lágrimas saudosas não mais se destinariam a palavras de consolo, boa noite. Olha pra trás, pois pra frente só há o bunker, e não há nada de novo no bunker.

As botas imprimiam no relvado, uma marca irreparável, e a paisagem da caminhada imprimia nos passos algo indistinguível. O toque, mais toque que antes, mais sensível, mais choroso; os olhos mais atentos, mais nocivos, menos paisanos, menos humano. Do medo, liberdade, da liberdade a conclusão de estar sobre o fio da navalha. O regresso. Dois dias de caminhada, intercalada por uma noite de insônia, remorso em não buscar exílio. Tudo no bunker, suscita a morte: a mulher possuída pelas mãos do que se dá o direito da estratégia, a filha desposada sem a autorização do que agora é saudade, o chão em que se firmava o sono bom agora é frágil e qualquer barulho estranho é pretexto para a expulsão do instinto. Debaixo do céu destelhado a noite é fria, e não há do que se privar. Acorda então, em ritmo de convenção, duro, pálido, dolorido pelo desconforto que traz um chão vertiginoso, noite mal dormida. O sol ilumina a procissão descrente, faz reluzir o reflexo de cada rosto, cada pretexto, cada condição; a fila desmonta, cada um segue seu próprio passo; uma valsa caótica que canta, em uníssono, canções sem sentido. Reunião, coordenadas, reordenação da rota, mais duas horas de caminhada e armarão trincheiras no pé da colina.

A caminhada que se segue é lenta, porém, verdadeira, nunca o gosto da água foi tão único, o peito aberto respira um ar tão puro que entorpece, o corpo se pede, o passo se consome, os reflexos são autômatos, o dia passa a ser menor, o tempo se dissipa em pequenas frações, tão ínfimas que singulares. Pedra sobre pedra, mãos que embalam, num movimento fluido, as paredes do bunker. No construir proteção, o semelhante se torna parte, o inimigo, ainda irreal é cada vez mais estrangeiro, o semblante da mulher que espera ao lado da caixa de correspondência, se esvai, pelo menos enquanto a ordem do dia não cessa: tudo se resume a manter-se vivo, sobrevivencialismo, transgressão. Todos a postos, cada músculo, uma infinidade de tensões, cada gesto, uma revelação. Eis que um estrondo encobre tudo, nada escapa ao seu alcance, a solidez do bunker se transforma em agonia, uma freqüência aguda ressoa infinitamente pelos ouvidos, tiros, tiros, tiros, tiros, tiros, o dedo não alivia o gatinho, tiros, tiros, tiros, tiros desgovernados para todos os lados, afinal um pai de família não se prepara para a guerra, apenas se dispõe. Cada pedaço de chão que sobe do gramado parece ser capturado por olhares fotográficos, cada grito se distingue pela intensidade, sem escutar palavras, o timbre inexpressivo é mais explícito que um texto bem escrito e conciso. Caos, poeira, confusão, eles estavam por todos os lados, e nós, acuados atirávamos a esmo.

O corpo enterrado, imundo, cinza, remanescente, espera. Espreita; o dedo indicador alivia o gatilho, o som dos pássaros e dos córregos que recortam o terreno começa um fade in na freqüência aguda, constante e irredutível, que era interrompida, aleatoriamente, pelo estalo do atrito entre ar e pólvora. A frente do nariz, suas pernas estranhamente ainda se movem sobre os escombros do bunker. É hora de coletar os restos, os espólios. De pé, o horizonte é, por demais nublado, mal cheiroso. Ao fim da batalha, as conquistas são indignas, são espólios de guerra, honrarias desnecessárias, menos uma: o que se perde. Perdeu o tato, não se excitava mais, tinha desejo ainda; desejo de morte, não mais desejo do outro. Nu, Niko procura o córrego, pra se livrar do sangue e do espólio. Nu, Niko dissipa de si o passado, dissipa de si a linguagem, castra de si o desejo, arranca com da pele, com as unhas ainda impregnadas de terra, a tradição e a cultura. Nu, Niko vê a si próprio escorrendo rio abaixo. Nu, Niko é feito de pêlo, pele e exoesqueleto, pois não há, nem mesmo haverá, e nunca houve, desejo no bunker.

Posted: July 7th, 2010
6:37pm by admin

 


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Comments: 1 comment



 

One Response to 'Niko no Bunker'

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  1. Dessa vez fiz diferente.
    Li o texto escrito antes mesmo de ouvir a faixa. E ainda nao escutei…
    Agora to instigado aqui imaginando como esse cenário relatado vai se traduzir em forma de música!

    Keep wolfin’

    Renan Castro

    8 Jul 10 at 5:55 pm

     


 

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