Glaydson da Silva
xatamente três meses, doze dias e duas horas depois de fazer sua primeira vitima, a liberdade condicional tão almejada fora enfim alcançada. Durante todo esse tempo foi necessário grande habilidade e destreza de seu armeiro que conseguiu uma forma de contatar seu general. Por meio de cartas, latas ligadas por um barbante, mensagens deixadas na janela durante a noite ou coisa assim. Fato era que de seu exercito só o armeiro ainda fazia parte de suas fileiras, e por não ter se envolvido diretamente no primeiro ataque, o último episódio não o afetou. Ele continuava solto, como se não fizesse parte de nada daquilo.
Dos outros soldados eu não posso falar o mesmo. Dois deles se mudaram os pais com medo das conseqüências das atitudes de seus filhos trataram de deixar seus empregos e partir pra algum lugar onde ninguém soubesse da barbaridade que fora ali cometida, esse dois eram irmãos. O outro foi forçado a mudar de bairro e de escola, filho de pai bêbado, dizem que ele apanhou tanto que ganhou, por culpa deste episódio, um desvio de coluna.
Como bom general que era ele se mantinha informado de tudo o que se passava na sua região, e aproveitou e bem seu confinamento para treinar a sua pontaria, esperava que os adultos se distraíssem e se escondia no quintal com seu revolver de pressão e então atirava.
Tendo definitivamente tomado posse de sua liberdade ele percebeu o quão poderoso se tornara quando descobriu que aquele carteiro, que já tinha problema em um dos rins, estava até naquele dia no hospital, fazendo hemodiálise e na fila de um transplante.
Quando andava na rua percebia o medo das pessoas ao olharem pra ele, se tornará poderoso, mas sabia que não podia agir por ali. Em um encontro secreto com seu armeiro percebeu a necessidade de capitalizar seu exercito, percebeu que com uma arma na mão poderia fazer mais, poderia ser mais. O armeiro lhe contou de um filme que vira enquanto não podiam entrar em ação: Cidade de Deus. E dali ele tinha tirado várias idéias que poderiam juntos colocar em prática, depois de duas ou três reuniões eles conseguiram então definir um objetivo – conquistar toda a vizinhança. Mas pra isso precisariam de uma arma. Seu pai já havia se desfeito da arma com a qual ele deu seu primeiro tiro. Precisavam de dinheiro, e era urgente, seu plano não podia mais esperar.
__Porque não roubamos umas lojas?
__Roubamos com o que?
__Ora, com a sua arma de pressão!
__Quem daria dinheiro sob a mira de uma arma de brinquedo?
__Você mesmo não se confundiu… É só segurar com firmeza que ninguém vai ser burro o suficiente pra te confrontar.
E o armeiro tinha razão. Eles então combinaram tudo, quando chegassem a escola fugiriam, pegariam um ônibus e em um outro bairro fariam o assalto. Eles estudavam na mesma escola em turmas diferentes. Não se encontravam durante o recreio, pois concluíram que seria melhor para todos se sua parceria fosse mantida em segredo.
O primeiro assalto
Seria ingenuidade pensar que o primeiro assalto seria bem sucedido, se o fosse eles poderiam tomar o lugar do Coringa ou do Lex Luthor e se tornarem super vilões. Eles tomaram o cuidado de ir para um bairro longe de suas casas, avistaram a vitima perfeita, era uma loja que ficava perto de terreno que poderia servir de abrigo para depois do ato. Pensaram até em deixar escondido nesse terreno o fruto de seu trabalho, para que pudessem sair dali sem maiores problemas e depois no outro dia pudessem voltar lá e buscar o que já lhes seria de direito.
Esperaram que a loja se esvaziasse e a invadiram, com camisetas tampando o rosto e gritando:
__Mãos pra cima! É um assalto!
(Nobody move, nobody get hurt, ninguém se move, ninguém se machucará então, nobody move, nobody get hurt, respeito é bom e mantém os dentes no lugar)
O cenário era perfeito, uma dessas lojas de bairro onde se vendem desde balas a bombas para encher bolas, era uma loja que tinha um bom movimento e, portanto deveria também ter um bom faturamento. Era só uma balconista naquela hora, a outra estava na pausa do café, lanchando na lanchonete que ficava ali em frente. O plano era simples, pega o dinheiro e corre se esconde no terreno, esconde o dinheiro e no outro dia voltavam pra buscar. O plano era simples e de fácil execução.
Tinham um código para cancelar a ação, caso algum dos dois percebesse perigo, e o armeiro acessou esse código, só dentro da loja ele percebeu que aquela era a loja de seu tio. Viu sua prima no balcão. Assustada. E percebendo as conseqüências negativas daquele assalto ele resolveu abortar e anunciar que estavam apenas brincando. Susto passado, a brincadeira foi bem recebida e ela até pagou um lanche para os dois brincalhões.
Estava claro que eles precisariam melhorar o planejamento de seus ataques. E assim o fizeram. E uma semana depois conseguiram enfim assaltar uma loja, em um bairro distante, o assalto lhes rendeu pouco mais de duzentos reais que seriam suficientes para conseguir uma arma de verdade.
Nas quatro semanas que seguiram eles conseguiram assaltar mais cinco lojas e sete pessoas, já tinham cerca de dois mil reais, dinheiro suficiente pra pagar soldados de verdade. Contratariam tropas mercenárias. Enfim teriam o exército de que tanto precisavam.
Passaram uma etapa importante e a cada missão mostravam que o sangue jorrava de seus olhos, ele ainda não esquecerá dos lixeiros, e agora que se tornará um verdadeiro pistoleiro, liberto de sua masmorra ele cuidaria daquele assunto.
