Um bom dia
Dos bons dias só lhe sobraram às fotos velhas, cor de sépia, castigadas pelo tempo, e as lembranças que elas carregam. Aquelas fotos tornaram-se chaves, que abriam portais com rumo ao passado. Um passado glorioso, mesmo quando não, dentro daquele universo paralelo revelado pelas velhas fotos em tons de sépia, ele era tão glorioso quanto o seu pensamento pudesse pensar tão glorioso quanto as folhas de louro podiam coroar, tão glorioso quanto…
No apartamento, uns discos velhos, um som velho, sintonizado em uma rádio que parecia falar só para velhos, um sofá velho, cômoda velha, geladeira velha, um fogão velho, um filtro de barro, copos de alumínio, uma garrafa de cana, em cima de uma mesa velha, um bule, um coador de pano, pó, açúcar, uns biscoitos, umas torradas industrializadas, um bolo de padaria, o resto da marmita de ontem.
Sargento do exercito brasileiro, em seus áureos tempos, comandou o Brasil junto a ditadura, foi responsável direto pela destruição de vários focos do comunismo no país. Em escolas, em igrejas, em farmácias e pasmem até em um banco. Mandava no Brasil, junto com seus colegas, sua tropa, seu batalhão, sua instituição.
Foi glorioso, foi grande, foi forte, foi.
No final dos anos 70 sofreu um acidente, ao tentar dissipar uma manifestação sindical se deparou com um grupo (mais um) disposto a resistir. Depois de alguma luta os manifestantes correram, todos em direções diferentes, se dispersaram. Se cada um levasse com sigo uma linha amarrada teriam formado uma rosa dos ventos.
Ele resolveu então seguir o líder, esse fugia de motocicleta, não durou muito a perseguição, um ônibus urbano, de linha, encontrou seu carro, um acidente horrível. Tinha sorte de ter saído dali vivo. Vivo não inteiro.
Passou por cirurgias de reconstrução, sua cara mudou, e como até aquela data não tinha se firmado com moça nenhuma, é provável que passasse o resto de seus dias na solidão.
Perdeu também seus dentes, pelo menos alguns deles, e os substituiu por uma dentadura, que venhamos tem suas conveniências.
O acidente e seu estado forçaram sua aposentadoria, agora perante os olhos do estado, era um invalido.
Não vale aqui relatar o drama que se seguiria, também porque até o fechamento dessa estória essa personagem não se apresentou dignamente pra mim.
Com seu fundo de garantia e sua indenização comprou um apartamento, e passou a trabalhar na reforma dele. Reforma completa passou a pegar bicos. Mas bico enjoa.
Conseguiu então o emprego de porteiro, em seu próprio prédio. Substituiria um porteiro queridos por todo, mas que teve que se mudar para acompanhar o filho que tentava a carreira de jogador de futebol no exterior ou em Alagoas.
Ele pegava a portaria as 14h e entregava as 22h, em troca não pagava mais a taxa de condomínio e ainda ganhava algum dinheiro.
Uma figura amarga, de poucos amigos, de pouco interesse. Se não fosse invalido, com certeza teria recebido honrarias do exercito, e se não fosse aquele piquete de comunistas disfarçados hoje não seria obrigado a trabalhar como porteiro, nada contra, mas aquilo não era pra ele.
Por isso odiava as associações, os sindicatos, as confederações, os circuitos e tudo mais.
E achava que a maior burrada da história foi a retirada do poder das mãos dos militares. O Brasil era melhor, tinha mais paz, tinha mais ordem. E isso trazia mais liberdade, isso é natural.
Uma figura amarga de poucas palavras, e de muitas reclamações, nada nunca esta nos conformes. Uma figura no mínimo pouco simpática.
Fez de seu apartamento seu mausoléu, e dali surgia como uma múmia pra cumprir sua função. Uma múmia quase que deformada pela ação do tempo. Quase.
Se mantinha vivo por conveniência e por medo da morte.
Fazia o que seu cargo lhe pedia, cumpria o que lhe era devido.
Naquela altura a vida já havia lhe roubado todos os seus prazeres. A farda, as mulheres, as praças. Não lhe restou quase nada.
Todos os dias por volta das 15h, mais ou menos uma hora depois do inicio de seu expediente, ele pegava em sua sacola uma marmita, ainda morna a abria, limpava com um guardanapo uma colher velha, pegava um copo, enchia d’água e ali colocava sua dentadura, e de colher comia todo o conteúdo de sua marmita, comia como os deuses do Olimpio comiam a sua ambrosia. Comer de colher, aquele prazer à vida não lhe havia tirado.
Todos os dias.
Exceto em suas folgas e nos feriados.
